Neste
artigo veremos as transformações sofridas pelo Colégio
Estadual Antônio Felipe de Salles a partir do advento da Nova República.
Esse período foi iniciado com as reformas políticas e institucionais
do governo de José Sarney (1985-1990), que assumiu a Presidência
da República com a morte de Tancredo Neves (21/04/1985), eleito indiretamente,
por meio de um colégio eleitoral. José Sarney foi o primeiro presidente
civil depois do regime militar iniciado em 1964. No seu governo foram estabelecidas
eleições diretas para todos os cargos, partidos políticos
puderam tanto se organizar como funcionar livremente e em 1988 foi promulgada
a nova Constituição Brasileira.
No Colégio Estadual Antônio Felipe de Salles, após 24 anos
no cargo, Ayrton Lívio Salomon estava cansado e sentiu que seria hora
de deixar a direção; negociou então a sua saída
com o seu sucessor. A partir da gestão de Ayrton Salomon, que foi substituído
em fevereiro de 1986 por Deusdedit Benedito Lambert, o colégio passou
a ter diretores com permanências mais curtas no cargo. Na gestão
de Deusdedit, o colégio, que já oferecia o curso Normal, passou
a ter também o curso de Profissional Técnico em Processamento
de Dados que era desenvolvido em três séries anuais, com 32 horas/aula
semanais; na ocasião o colégio tornou-se o pioneiro na área
de informática na região.
Deusdedit foi sucedido por Maria Izabel Lambert Duarte Bueno em novembro de
1990. Maria Izabel nos conta que sua história de vida mistura-se com
a história do colégio, pois, a partir de 1963 foi aluna, professora
e diretora, período em que implantou um outro curso técnico, o
de Administração. Foi uma época também de envolvimento
do colégio nos movimentos grevistas com foco principal nas reivindicações
de melhorias salariais. A participação ativa dos professores de
Cambuí nos movimentos grevistas iniciou-se com um grupo de professores
da Escola João Lopes, no final dos anos 80. No inicio, tímida,
cresceu e houve ano em que as aulas estiveram paralisadas por mais de 30 dias.
Na sua gestão Maria Izabel viveu também, como os seus antecessores,
o problema de falta de verbas. Atesta o fato documento de 18 de setembro de
1992, endereçado ao então Secretário de Estado da Educação,
Walfrido Silvino dos Mares Guia Neto. Nesse documento a diretora relata que
em maio de 1991 foi enviada planilha de serviços no valor de Cr$ 30.000.000,00,
para custear reparos e manutenção do prédio, no entanto
o Estado tinha disponibilizado apenas Cr$ 11.965.550,00, quantia suficiente
para realizar apenas as obras emergenciais. A diretora relata ainda a carência
de recursos e o sacrifício e zelo da comunidade escolar com o colégio
e solicita a complementação de verbas. Por outro lado, a exploração
da cantina para oferecer outros produtos além da merenda básica,
que era gratuita, melhorando sua qualidade, gerava renda que permitia a sobrevivência
da escola, cobrindo inclusive as deficiências dos recursos repassados
anualmente pelo Estado. Vale ressaltar que verbas extras para o colégio
somente eram conseguidas por meio de apoio ou interferência política.
Em outro documento de 23 de setembro de 1992, endereçado ao Chefe de
Gabinete do Secretário da Educação, a diretora lista os
serviços por fazer: substituição de calhas e condutores,
lâmpadas fluorescentes, fiação elétrica, tacos, vidros
e fechaduras, reparo nas válvulas de descarga, na rede sanitária,
além de proteção nas paredes recém-pintadas bem
como no prédio, por meio da instalação de grades. Tratava-se,
portanto, apenas de obras de manutenção.
Maria Izabel assumiu pela primeira vez a direção do colégio
por meio de uma indicação do seu antecessor que articulou a sua
candidatura através de um acordo com as lideranças políticas
locais, para aceitar a escolha dos professores e funcionários. A partir
dessa indicação, houve eleição e a escolha foi respeitada
pelas instâncias superiores do Governo do Estado. Na segunda gestão
de Maria Izabel, que se encerrou em janeiro de 1993, foi a primeira vez que
houve uma eleição livre para a direção do colégio
com ampla participação da comunidade escolar local. Houve um concurso
com pontuação mínima entre os professores, do qual saíram
os três candidatos mais votados, que disputaram posteriormente entre si
o cargo de diretor. A escolha agora determinada por legislação
estadual, em vez de política, passou a ser feita pela comunidade escolar
local, constituída de pais, alunos, funcionários e professores.
O colégio passou por transformações a partir da década
de 70, com a implantação do ensino fundamental de oito séries,
e posteriormente com a criação do colegiado interno para discutir
suas políticas de ensino; a partir da década de 90, passou também
a eleger os seus diretores. A criação do ensino fundamental de
oito séries (hoje com nove séries) teve como objetivos principais
diminuir as rupturas entre os antigos cursos primário e ginasial e garantir
um tempo de permanência maior do aluno nas escolas. A criação
do colegiado, surgiu a partir dessas reformas, e o processo eletivo precedido
de um concurso foram mudanças surgidas em função das conquistas
da sociedade brasileira e da democratização do País. No
entanto, a democratização e a maior autonomia das decisões
internas do colégio não foram acompanhadas pela criação
de fóruns em instâncias superiores para atender as reivindicações
da comunidade escolar.
A
partir do início da década de 80, a Escola João Lopes passou
a ter a 5ª série e posteriormente, com a criação do
ensino médio, assumiu também a mesma função do colégio.
Hoje o João Lopes abriga cerca de 1366 alunos, um número superior
ao do Colégio Estadual Antônio Felipe de Salles. Outra escola estadual
criada no final da década de 80, a partir de uma expansão do João
Lopes, foi a Escola Maria Conceição Moraes, que abriga hoje cerca
de 432 alunos.
Além da criação de outras escolas estaduais na cidade,
o colégio passou a sofrer também a concorrência das escolas
privadas que começaram a surgir a partir da primeira metade da década
de 90, na seguinte ordem: Escola Ana Bueno, Colégios Meta, Objetivo (Centro
Educacional Monsenhor Aristeu Lopes), Nova Aliança, Escola Arco - Íris
e Escola Infantil São Francisco.
A migração de alunos da rede pública para a particular
foi um fenômeno nacional, surgido em função do descontentamento
com a escola pública, e até mesmo, em certos casos, uma opção
cultural motivada pela crença que a escola particular é sempre
melhor que a pública. Atualmente existe uma tendência de movimento
inverso; um fenômeno também nacional, com fechamento de escolas
particulares e retorno à escola pública. Os principais motivos
dessa tendência são os altos custos com o pagamento de mensalidades
das escolas particulares e a estabilização do número de
alunos, levando a cidade a não comportar tantas escolas.
O curso Normal foi extinto, devido à exigência de graduação
para os professores atuarem no magistério, feita pelo Ministério
da Educação. Os cursos técnicos em Processamento de Dados
e Administração foram extintos a partir da secunda metade da década
de 90, por redução de demandas motivadas, principalmente pela
redução de oferta de trabalho e exigência, por parte das
empresas, do nível superior para atuação nestas áreas.
Segundo Maria Izabel, outro fator que também contribuiu para o esvaziamento
desses cursos técnicos foi a criação do ensino de contabilidade
em cidades vizinhas, como Camanducaia e Estiva, que anteriormente eram atendidas
pelo colégio de Cambuí.
Outra mudança importante no ensino, surgida no final do século
XX, foi a mudança estabelecida pelo Estado no critério de avaliação
dos alunos, com a introdução do conceito de progressão
automática. Esse conceito, que não permite a reprovação
do aluno, foi implantado com o intuito de reduzir a defasagem e aumentar a auto-estima
dos alunos; teve também como intenção a democratização
do ensino, procurando tornar a educação acessível a todos.
Tais reformas atingiram somente parte de seus objetivos. A implantação
do ensino fundamental de 1ª a 8ª série, instituída para
aliviar o choque da passagem entre o primário e o ginasial, não
superou, por exemplo, a diferença entre a quantidade de professores e
o número de matérias, bem como não permitiu um vínculo
maior do aluno com os professores a partir da 5ª e 6ª séries,
vínculo este que se constrói em um tempo mais longo, facilitando
a avaliação do aluno, feita com o foco maior na provas.
A universalização da educação é um princípio
correto, mas seu sucesso depende das formas de sua implantação.
Ela produziu uma diversificação e o aumento da clientela de alunos,
compreendendo tanto os bons quanto os poucos comprometidos, e ainda o aluno
trabalhador que muitas vezes tem seu rendimento prejudicado pela carga horária
de trabalho. Hoje se discute as dificuldades que a universalização
do ensino criou para os professores e existem propostas de revisão do
conceito da progressão automática que, no entender de alguns,
não produziu no plano real respostas práticas e satisfatórias.
A queda da qualidade do ensino do colégio tem algumas razões:
no passado o número de alunos era pequeno e a família contribuía
para um maior empenho dos seus filhos no estudo; a concorrência com outros
meios de informação e comunicação também
pode ter contribuído para o desinteresse pelo ensino formal. Outra provável
explicação para o fato do colégio de Cambuí ter
sido no passado um estabelecimento de ensino diferenciado e modelo exemplar
de instituição pública, pode ser, talvez, o profundo envolvimento
do corpo docente daquela época.
Maria Izabel foi sucedida por Ana Pereira Pedro (fevereiro de 1993 a maio 1995),
Heleni Maria Carvalho Silva (maio de 1995 a dezembro de 1996) e Maria Celeste
Vilhena Dias (janeiro de 1997 a março 2004), que se empenharam, cada
qual à sua maneira, no nobre trabalho de educação da comunidade
cambuiense, apesar das dificuldades constantes, como a insatisfação
salarial e a falta de recursos materiais para cumprir os projetos do Estado.
As rápidas transformações pelas quais passou Cambuí
ao longo dos anos, e sobretudo no final do século XX, fizeram com que
o colégio deixasse de ser uma marca e perdesse o destaque e a importância
que tinha para a cidade nas décadas de 60 e 70, época em que era
identificado simplesmente como O Colégio.
Talvez o fato de atualmente ele ser apenas mais uma instituição
de ensino da cidade nos dê, às vezes, a estranha sensação
que temos quando o visitamos: não o encontramos mais como o imaginamos
nem como o conhecemos.
No próximo e último número veremos os problemas atuais
do colégio e as medidas necessárias para valorizá-lo e
preservá-lo como patrimônio cultural material e imaterial cambuiense.
Artigo dedicado, in memoriam, ao meu professor e amigo Dr. Pedro Carlos Junqueira
Ferraz (09/06/ 1921 19/01/2008).
__________________________________
Benedito Tadeu de Oliveira nasceu em Cambuí, é arquiteto graduado
pela Universidade de Brasília, doutor em Restauração de
Monumentos pela Universidade de Roma La Sapienza e diretor do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN - de
Ouro Preto, MG.
Memória: XIII
- No final do século XX
Entrevista: Perigo
nas alturas
Política: "HUMANIZAR
a Política"
Cidades - Santa Rita do Sapucaí: Sacolas
ecológicas no Vale da Eletrônica
Cidades - Camamducaia: Clube
Municipal atende 210 educandos em programa mineiro
Cidades - Senandor Amaral: Suspeita
de fraude é investigada em Senador Amaral
Política: Lula
visita a região
Cultura: Casa
Delfim Moreira, museu histórico
Política: Convenções
partidárias lançam candidatos
Cidades - Cambuí: Festa
de Nossa Senhora do Carmos, fé e tradição em Cambuí
Saúde: Mutirão
da dengue supera expectativas
Horóscopo: 1ª
quinzena de julho
Artigo: Por
uma educação de Qualidade!
Guia de Saúde: Hanseníase
tem cura
Guia de Saúde_2: Tuberculose:
uma doença que mata
Cidades
- Cambuí: Câmara
aprova aumento de salários
Turismo: Passeios
pelas Serras Gaúcha
Sétima Arte: O
Conclave / Sangue e Chocolate / O Julgamento de Nuremberg / Hairsplays
Quadrinhos: Os
Trânquera - Jaral / SIG - Aislan Ferreira
Cidades - Cambuí: População
reclama da falta de médico no Pronto Socorro
Artesanato: De
raízes a belas peças de artesanato
Comportamento: Eu
só peço a Deus...
_______________________________________________
Edição On-line do Jornal O Regional das Alterosas Edição
86
Atualizado por: Simone Bonatti 03/07/08