O cinema em Cambuí

IX – A reabertura

Como vimos nos artigos anteriores, em função das diversas dificuldades surgidas a partir da década de 80, o cinema passou a ser um negócio pouco rentável nas cidades pequenas brasileiras e, conseqüentemente, também em Cambuí. Porém, no dia 17 de dezembro de 1999, depois de oito anos do seu fechamento, o Cine Cambuí foi reaberto e, para uma sessão superlotada, foi apresentado o filme O Sexto Sentido. A grande presença do público cambuiense na reabertura do cinema fez necessária a realização de uma sessão extra, às 23 :30h.
Então as primeiras perguntas que surgem são: quais foram as razões e como foi a preparação para a reabertura do Cine Cambuí?

Segundo Tito Lívio Meyer, que assumiu a nova administração do Cine Cambuí, “o fenômeno Titanic fez as pessoas redescobrirem o prazer de ir ao cinema”. Baseado no desastre do navio, ocorrido em 1912 e produzido em 1997 pelos estúdios 20th Century Fox, Paramount Pictures e Lightstorm Entertainment, esse filme, juntamente com Ben-Hur (1959) e O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei (2003), recebeu 11 Oscars e foi um dos mais premiados na história do cinema. A mega produção de 200 milhões de dólares, dirigida por James Cameron e tendo como protagonista Leonardo Di Caprio, rendeu mais de 1 bilhão e 800 milhões de dólares em bilheteria no mundo todo.

Foram inúmeras as excursões das cidades do interior para assistir o filme nas poucas cidades brasileiras que ainda contavam com uma sala de cinema. Em Bragança Paulista (SP), o filme ficou em cartaz por cerca de três meses seguidos.
Um outro fator apontado por Tito é que o fim da pirataria, o mercado de vídeo legalizado e atualizado e a moda de assistir muitos filmes no videocassete, provavelmente reascendeu a paixão e o interesse pelo cinema, o quefavoreceu para que o público voltasse a crescer nos cinemas a partir do final dos anos 90. Segundo Tito Lívio, havia mudado também a relação das distribuidoras com as salas de exibição. Ao contrário dos preços fixos, muitas vezes exorbitantes e inviáveis, estabeleceu-se uma nova relação de parceria, onde lucros e prejuízos passaram a ser divididos entre fornecedores e exibidores.
Ele aponta também os grandes lançamentos mundiais, surgidos em função da globalização. Esse fenômeno diminuiu consideravelmente o tempo de chegada de um filme aos cinemas, bem como do seu lançamento até o interior do Brasil, o que provocou também a diminuição da sua vida útil nas salas de cinema, que passou de aproximadamente cinco anos para cerca de seis meses. Os filmes que demoravam aproximadamente um ano para chegar ao Brasil e, depois, até dois anos para chegar ao interior, passaram a chegar de forma muito mais rápida, hoje numa média de quatro semanas. Ha vários casos de lançamentos nacionais em Cambuí; e até mesmo alguns casos de exibição de filmes na cidade antes de algumas capitais de outros países.
Ainda de acordo com Tito Lívio, esses fatores aconteceram na época da desocupação do prédio do cinema pelo Colégio Meta Objetivo; posteriormente também ocorreu a estabilização da inflação, o que passou a permitir financiamentos de longo prazo para obras de adequação e para as melhorias constantes na infra-estrutura do cinema.

Todos esses dados de conjuntura, aliados ainda à paixão da família de Wanderley Meyer pelo cinema, coincidiram com o retorno de Tito Lívio a Cambuí. Ele se graduou em Análise de Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas em 1987 e em Comunicação Social com especialização em Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) de São Paulo em 1994. Tito Lívio afirma que para ele a reabertura do Cine Cambuí foi como a realização de um sonho, porque sempre acreditou na viabilidade do cinema, desde que estabelecido com um padrão de qualidade que respeite o público cada vez mais exigente.
Para a reabertura do Cine Cambuí foi realizada uma obra de adequação que praticamente consistiu na construção de uma sala nova dentro da antiga; ou então um cinema menor dentro de outro maior.
Foram aproveitados o declive existente, a porta de entrada, a porta da saída de emergência, os banheiros e os espaços da sala de espera e da bilheteria, contudo foi necessário construir uma nova cabine dentro da sala, pois a antiga, instalada sobre a sala de espera, tinha sido incorporada ao Banco do Brasil, que ocupa o Edifício Tatita.
Pensou-se em construir uma sala de aproximadamente 200 lugares e, após uma série de simulações, decidiu-se por uma configuração que proporcionasse a maior tela e a melhor relação de distância das poltronas para a projeção da imagem. O cinema passou da dimensão anterior de 20 por 35m, para a atual de 12m de largura por 20m de comprimento; a parede mais alta ficou com 9,5m de altura.

Houve um tratamento acústico da sala por meio do revestimento de todas as paredes de carpete, instalação de portas revestidas de espuma e carpete para isolamento com abertura para fora, obedecendo às normas de segurança. A saída de emergência em rampa também serve de entrada para deficientes, atendendo assim à Lei de Acessibilidade, nº 10.098 de 19 de dezembro de 2000.
O projetor foi adquirido de um antigo cinema de Varginha (MG) e foi totalmente adequado aos padrões atuais. Conta com uma torre de projeção que possibilita a exibição do filme com um único rolo, evitando assim a troca de suas partes. O som passou a ser estéreo, com processador nacional, três caixas centrais e oito laterais.
As 225 poltronas de modelo semelhante às de vários cinemas de shopping centers de São Paulo existentes nos anos 90, foram adquiridas de um cinema de Ubá, Zona da Mata Mineira, cujo proprietário era o Sr. Fernando de Oliveira, o mesmo que adquiriu e revendeu o Cine Cambuí a Wanderley Meyer na década de 60.
Como a tela importada ficou presa em uma operação padrão da alfândega, foi necessário adquirir a única que estava disponível em pronta-entrega nas lojas naquele momento, entretanto essa tela tinha dimensões maiores do que a estrutura pronta para recebê-la. Por tratar-se de um tecido importado, a tela deve ser cortada sob medida, assim, ou se comprava a que estava disponível, ou se adiava a data da inauguração. Por essa razão, a tela teve de ser dobrada e funcionou satisfatoriamente por algum tempo. O cinema teve também a sua bomboniére incrementada e adequada aos novos tempos, passando a vender pipoca e refrigerantes.

Com a construção de uma parede interna em forma de L no antigo cinema, restaram dois espaços que também foram ocupados: o longitudinal transformado em um depósito e o transversal na parte posterior da edificação que passou a abrigar a Firma Bonecas Etc.Cia. Ltda, criada em fevereiro de 2002. César Augusto Meyer, proprietário dessa firma popularmente conhecida como “Jujuba Carola” e que praticamente cresceu no ambiente do cinema, tem hoje seu escritório montado sobre o antigo palco, onde tocaram e cantaram “monstros sagrados” da música popular brasileira, como Paulo Moura, Cartola e Nelson Cavaquinho.
Em 2004 o Cine Cambuí fez uma pesquisa de opinião entre os seus clientes e, ao contrário do que se imaginava, foram apontados dois pontos negativos inesperados. Acreditando que um dos pontos negativos do cinema fosse o som, já que o processador era nacional e não dividia os efeitos a contento, para surpresa geral foram criticadas as manchas na imagem e o desconforto das poltronas.
A tela dobrada não esticava direito, o que provocava manchas, e as poltronas no padrão de qualidade dos shopping centers de São Paulo dos anos 90 não satisfaziam mais as pessoas. O público exigia um encosto mais alto para apoiar a cabeça e um lugar para colocar o refrigerante e a pipoca.
Na decisão de melhorias do cinema foram priorizados três pontos: nova tela, novas poltronas e, segundo Tito, “mais pipoca” Em função das deficiências profissionais do fornecedor, a nova tela que foi encomendada em janeiro só foi entregue em novembro de 2005; portanto a reforma levou um tempo acima do previsto para ser concretizada. A implantação de uma tela plana de 10m de cumprimento por 4,5m de largura, na mesma dimensão da antiga, contudo rigorosamente esticada e lisa e disposta 70 cm mais próximo da parede dos fundos, contribuiu para aumentar ligeiramente a imagem final.

Considerando o alto custo das poltronas e os raros dias em que o cinema estava plenamente lotado, além da alta rejeição às duas primeiras fileiras do cinema, decidiu-se por retirá-las, diminuindo assim a capacidade da sala de 225 para 171 lugares. Para melhorar o conforto do público, aumentou-se também a distância entre as fileiras de 1,10m para 1,20m. As novas poltronas, provenientes de São Paulo, têm encosto alto, porta-copos, e sua inclinação aumenta com a aproximação da tela, de forma a possibilitar ao espectador olhar sempre para o centro da tela, mesmo estando sentado na primeira fileira.
O Cine Cambuí também se preocupou em melhorar o padrão de qualidade das pipocas e passou a servi-las em caixinhas de papel colorido, e não mais em saquinhos de papel branco. A caixinha de pipoca ganhou três opções de fornecimento: pequena, média e “família”. A de tamanho “família” é uma atração à parte, pois assemelha - se a um imenso balde do tamanho de uma panela de pipoca. A essência de manteiga dá cor e sabor especiais, tornando a pipoca do Cine Cambuí imbatível, considerada a melhor da cidade.
No próximo e último número veremos como o Cine Cambuí entrou no século XXI sendo recompensado e recebendo uma premiação da Agência Nacional de Cinema – Ancine.
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Benedito Tadeu de Oliveira nasceu em Cambuí, é arquiteto graduado pela Universidade de Brasília, doutor em Restauração de Monumentos pela Universidade de Roma “La Sapienza” e diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN - de Ouro Preto, MG.


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