Prece de um cão abandonado

Sabe Senhor, ainda não entendi: naquele dia viemos à pracinha como sempre fazíamos. Ahh! Que alegria a minha estar passeando com meu amado dono. Lá chegando, me deu as costas, entrou no carro e nem me disse adeus. Olhei para os lados sem entender nada e sem saber o que estava acontecendo e disparei atrás dele chamando insistentemente. Tentei segui-lo e quase fui atropelado. O que eu teria feito de tão errado?

A noite, quando ele chegava, eu abanava o rabinho cheio de alegria por ele ter voltado, mesmo que ele nem se lembrasse de mim e fosse ao quintal me fazer um carinho. Às vezes eu latia porque tinha estranhos no portão. Não poderia deixá-los entrar sem avisar meu dono. Quem sabe foi minha dona que me mandou ser abandonado. Será que eu estava dando muito trabalho? Mas e as crianças? Elas me adoravam. Como sinto saudades, Senhor. Puxavam meu rabinho e as vezes doía e eu ficava danado, mas logo ficávamos amiguinhos novamente. Creio que elas nem sabem o que aconteceu e pensam que eu fugi.
Estou morrendo de saudades, estou faminto, só bebo água suja, meus pêlos caíram quase todos. Nossa! Como estou magro.

Sabe meu Pai, aqui neste cantinho que arrumei, faz muito frio e o chão está todo molhado. Não tenho mais quem goste de mim e não tenho mais aquele sorriso de alegria de antes. Creio que hoje vou me encontrar com o Senhor. Aí no Céu vou atravessar a ponte do arco-íris e meu sofrimento vai acabar.
Senhor, mesmo em espírito eu vou ter permissão para encontrar as crianças? Senhor, peço não por mim, mas por meus irmãozinhos. Ameniza-lhes o frio igual ao que eu sinto agora. O alimento do amor também lhes foi negado. Mata-lhes a sede com água pura de seus ensinamentos transcritos ao homem. Elimine a dor da doença extirpando a ignorância da Terra.
Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos apregoados como religiosos, pesquisas em laboratórios e tudo mais.

Ampare as cadelinhas e gatinhas que verão seus filhinhos morrerem de fome, frio e pestes, sem nada poderem fazer. Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados nas ruas e nos abrigos dos animais, pois dentre todos os males, o que mais doeu foi a dor do abandono.
Recebe, Pai, nesta noite gélida, minha alma, não pelo meu sofrimento, mas pelo dos que ficaram. Com meu último pensamento aqui na Terra, para meus donos que tanto amo, me despeço com amor e carinho.

(Autor desconhecido)



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