Ervas: será que realmente curam?

Cambuí - Na horta estabelecida no quintal de Ana Francisca Pereira, 87, mais conhecida como Dona Aninha, são contabilizadas ao menos 50 tipos de ervas, segundo ela. Cuidando das plantas e estudando suas funções há mais de 40 anos, a aposentada conhece o efeito que cada uma delas pode causar se ingeridas por meio de uma infusão de chá ou se colocada sobre uma ferida. Por exemplo, um tipo de planta que ela acredita ser eficiente é o quebra-pedra, que auxilia na eliminação de cálculos renais. “Ele faz com que o rim elimine as pedras na urina”, diz essa senhora que cultiva “arnica da horta, arnica do mato, hortelã, hortelã-pimenta, gengibre, guaco, sálvia, picão, confrei, erva-cidreira, quebra-pedra, macela galega e canforada, alfavaca, alfazema, alecrim, avenca, manjericão, babosa, arruda e açafrão”, dentre muitas outras.

Há muitos anos a casa de Dona Aninha é uma das mais procuradas, senão a mais, por toda a cidade, em busca de ervas. Questionada sobre o incômodo de sempre doar folhas ou pés das plantas para a grande quantidade de pessoas que as procuram, a filha de Dona Aninha, Maria Ivone Câmara, 58, aposentada, diz que gosta de ajudar as pessoas e que tem até um farolete para quem vai lá à noite. O único problema, diz ela, é que “tem gente que não sabe apanhar as ervas e acaba estragando todo o pé”.

Cuidados
As ervas, ao serem utilizadas, requerem certos cuidados. Nem todas podem ser ingeridas a qualquer momento, pois, muitas delas possuem contra-indicações ou não podem ser misturadas a outras, a fim de potencializar seu efeito e sanar mais rapidamente a dor. Maria alerta para esse cuidado, que deve ser tomado ao aderir ao tratamento fitoterápico. “As ervas também possuem efeitos colaterais, mas em menor quantidade (se comparado aos medicamentos industrializados), já que o tratamento é mais demorado”, diz. Mas ela lembra que mulheres grávidas devem redobrar os cuidados com as plantas, pois “algumas delas são abortivas, como babosa e arruda”.

A farmacêutica Carolina de Salles Merlo, 28, que manipula remédios à base de ervas e revende diversos tipos delas reforça essa idéia, advertindo que é preciso ter muito cuidado ao se medicar com fitoterapia. “Existem plantas que têm uma dosagem certa para serem usadas, algumas são tóxicas, e ainda existem diversas plantas que são muito parecidas, que às vezes até pertencem à mesma família, mas que possuem efeitos muito diferentes”, conta, ressaltando que isso é válido para a mistura de duas ou mais ervas, que deve ser feito com muito cuidado, pois elas podem reagir entre si e causar graves efeitos colaterais.
Carolina diz também que existe um jeito certo para preparar chás, pois algumas dessas infusões são feitas com folhas ou pós “e devem ser misturados à água depois que ela estiver fervida, e então esperar uns 10 minutos (senão perdem todo seu efeito)” e outras são preparadas com cascas, raízes ou sementes “que têm que ser fervidas junto com a água (caso contrário não liberam suas propriedades)”. Ela alerta ainda para que as pessoas saibam onde comprar as ervas, que conheçam a procedência delas a fim de evitar posteriores complicações.

Para a também farmacêutica especialista em manipulação Viviane Dias Baptista, 35, a chamada medicina alternativa – baseada nas plantas, hortaliças, frutas e outros tratamentos naturais - “previne e ajuda muito a curar doenças”. Ela acredita que, por exemplo, enfermidades como “colesterol e diabetes podem ser tratados com remédio industrializado aliado com ervas, que vão auxiliar no controle”.

O outro lado
A doutora Carmen Lúcia Fanuchi, 48, pediatra e especialista em infectologia, imunologia e alergia, diz que acredita na ação das ervas, “até porque existem estudos culturais das antigas cilvilizações que dizem que as plantas têm ações medicinais”. “Mas tudo tem que ser utilizado com muita cautela. Por exemplo, do mesmo jeito que existem plantas antiinflamatórias, existem plantas inflamatórias”, completa. Para doenças como virose, leve inflamação nas vias aéreas, dor de cabeça, cólica, tosse, resfriado ou diarréia, a doutora acredita que um chá pode ser benéfico e até ajudar a tratar. Mas ela defende que as pessoas devem ter bom senso, pois, enfermidades mais sérias não podem ser tratadas com ervas. “Se alguém está com broncopneumonia (infecção no pulmão), como dar um chá para cura-la?”, pergunta. Ao ser questionada sobre o tratamento fitoterápico que muitos adotam para controlar o diabetes (excesso de açúcar no sangue), ela diz que acha “extremamente arriscado”. “Muitas pessoas que se submeteram ao tratamento único de ervas já morreram de infecção, que se espalhou por todo o corpo”, alerta.

Soraia Abreu Predrozo*
*Soraia Abreu Pedrozo é estudante de Jornalismo e estagiária do Jornal O Regional das Alterosas.


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