O texto de hoje
tem aroma de saudade, infância, música, poesia e saraus. Procuro
estimular uma reinvenção da vida, dos fatos e das certezas
incertas.
Encerro com uma poesia de Cecília Meireles, para quem sabe estimular
o retorno dos saraus por nossa região.
Dentre as minhas brincadeiras preferidas de infância, destaco uma, onde
me produzia toda para cantar e declamar.
Ia para o quintal, vestindo roupão de banho da minha mãe, com
bobs no longo cabelo loiro, batom, pulseiras, colares e brinco grande, com várias
poesias na mão e músicas na cabeça.
Lembro de um canteiro redondo com uma planta parecida com coqueiro. Era lá
o local que espetava o cabo de vassoura que virava microfone. E iniciava meu
sarau particular e solitário. Como queria ser adulta logo, vivia lendo
os livros de minha irmã nove anos mais velha. Na época achava
chique falar difícil e sempre com um Português impecável.
Neste quintal conheci trechos dos Lusíadas de Camões, viajei com
Euclides da Cunha por seus sertões e a poesia de Cecília Meirelles,
onde o destaque ficava com o famoso Ou Isto ou Aquilo.
Como ela podia perceber e escrever com tanta leveza a dificuldade que temos
ao fazer escolhas?
Encantava-me com Cecília e com isso, repetia a poesia várias vezes,
com tons de voz e trejeitos diferentes, deixando as diversas Biazinhas se manifestar.
Permitia-me!
Ontem vi um programa conduzido por Toni Belotto, um dos famosos Titãs
que mergulha na literatura, assim como outros descolados modernos que estudam
o tema, como a gracinha da garota do Pato Fu e Gabriel o Pensador, que estavam
no programa.
Encontrei um programa inteligente, moderno e bem construído, assim como
as poesias de Chico e Caetano.
Essa diversidade que a vida nos apresenta, de poder fluir de Camões para
Gabriel, O Pensador, de Fernando Pessoa para Manoel de Barros, chegar a Clarice
Lispector, Patativa do Assaré ou a Fernando Anitelli do Teatro Mágico,
Renato Russo, Raul Seixas, Paulo Leminsky, Osho e tantos outros, permite-nos
um melhor desfrute da festa viver.
Encerro o texto com uma poesia de Cecília Meireles, para que lembremos
da importância do reinventar-se sempre!
Reivenção
A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas ...
Ah! Tudo bolhas
que vê de fundas piscinas
de ilusionismo ... mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não tealcanço...
Só no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
*Beatriz
Marcos Telles é educadora, terapeuta holística.
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Edição On-line do Jornal O Regional das
Alterosas Edição 109 - Atualizado por: S. Bonatti
02/07/2009